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Quando o meme atravessa a fronteira: as piadas que se perdem entre o português e o japonês

Porque é que a tradução literal de piadas e memes quase sempre mata a graça? A Yuki explica com exemplos reais entre o português e o japonês.

Já tentaste traduzir uma piada para outra língua e percebeste que, no fim, ficou tudo menos piada? Pois é, isso não é azar — é ciência. Quando pego num meme português e o passo para 日本語 (nihongo), o cérebro dele morre no caminho. E o contrário também: um ボケ (boke), que é a parte da piada no manzai japonês, soa a um erro de tradução automática se o levar à letra para português. Hoje vou mostrar-te porque é que o humor não se traduz, mas se recria — e como evitar os famosos

ボケ

quando tentas fazer rir um japonês com um meme tuga.

Quando o meme atravessa a fronteira: as piadas que se perdem entre o português e o japonês — illustration | GoTxt.ai

O problema de levar tudo à letra

A tradução literal é traiçoeira porque ela funciona bem com manuais de instruções, mas falha redondamente com humor. Pensa no clássico português

ナイフが降っている

. Se eu disser a um japonês que ナイフが降っている (naifu ga futte iru), ele vai olhar para o céu à procura de facas. Literalmente. E não há graça nenhuma nisso. O equivalente japonês seria 土砂降り (doshaburi), que significa algo como «chuva de terra e areia» — uma imagem completamente diferente, mas com o mesmo efeito de exagero. O humor vive da imagem que cria na cabeça de quem ouve, e cada cultura tem as suas imagens.

Memes que se desfazem na tradução

Agora vamos ao que interessa: os memes. Um dos meus exemplos favoritos é o famoso «Isto é uma faca» — aquele sketch do Crocodile Dundee que virou meme mundial. Em Portugal, a piada funciona porque há um contraste entre o tamanho da faca e a palavra «istinho». Agora imagina traduzir isso para japonês: これはナイフです (kore wa naifu desu). Perdeu-se o tom irónico, perdeu-se o tamanho, perdeu-se tudo. Para um japonês, isso é apenas uma afirmação factual. A solução? Não traduzir, mas adaptar: usar o ボケ e o ツッコミ (tsukkomi), que são as duas faces do humor japonês — o disparatado e o corretivo. Em vez de traduzir a piada, recria-la com essa estrutura.

O caso das onomatopeias e dos trocadilhos

As onomatopeias são outro campo minado. Em português, o cão faz «ão-ão»; em japonês, faz ワンワン (wan wan). Até aqui, tudo bem. Mas e as onomatopeias de estados emocionais? O japonês tem ムカムカ (mukamuka) para quando estás enjoado ou irritado, e ワクワク (wakuwaku) para quando estás entusiasmado. Não há equivalente direto em português. Se traduzires «estou todo ワクワク» por «estou todo waku waku», ninguém percebe. E se tentares explicar por outras palavras, a piada morre. O mesmo acontece com trocadilhos: o famoso «o que é que o tomate foi fazer ao banco? — foi tirar extrato» não tem qualquer graça em japonês, porque o trocadilho vive da palavra «extrato» em português.

Como sobreviver ao humor japonês

Então, como é que se conta uma piada em japonês sem morrer na praia? Primeiro, esquece a tradução. Pensa no conceito da piada e procura uma forma japonesa de a contar. Segundo, estuda os ギャグ (gyagu), que são as piadas curtas japonesas, e os ダジャレ (dajare), que são os trocadilhos deles. Um bom exemplo de dajare: 猫が寝込む (neko ga nekomu) — «o gato adoeceu» e «o gato dorme» ao mesmo tempo. Não tem piada nenhuma em português, mas em japonês é de chorar a rir. Terceiro, aceita que algumas piadas são intraduzíveis e está tudo bem. O humor é cultural, e é isso que o torna tão especial.

O que fazer quando a piada falha

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