Anna Blog Alemão à letra: expressões que não se traduzem (e como as aprender)
Alemão à letra: expressões que não se traduzem (e como as aprender)
Há expressões alemãs que, traduzidas à letra, parecem saídas de um sonho. Neste artigo, a professora Anna mostra como aprendê-las sem decorar como um papagaio.
Há dias em que o alemão me parece uma língua desenhada por um poeta com sentido de humor. Digo aos meus alunos que das ist nicht mein Bier significa
, e eles olham para mim como se lhes tivesse dito que a lua é feita de queijo. Mas é exatamente esse espanto que eu adoro. Quando uma expressão não pode ser traduzida à letra, o nosso cérebro é obrigado a criar uma ponte nova entre duas formas de ver o mundo. E é aí que a língua deixa de ser gramática e passa a ser cultura. Hoje quero mostrar-vos como abraçar o absurdo de expressões como die Daumen drücken ou ich verstehe nur Bahnhof — e como transformar essa aparente loucura na vossa maior aliada para não esquecer vocabulário.

Quando a tradução literal falha (e ainda bem)
Comecemos pelo clássico: ich verstehe nur Bahnhof. Se traduzirmos palavra por palavra, alguém está a dizer que «só percebe a estação de comboios». Na realidade, significa «não percebo nada» ou «isto é chinês para mim». É a versão alemã do nosso «estou a ler grego», mas com um comboio ao fundo. A origem? Diz-se que remonta à Primeira Guerra Mundial, quando os soldados, cansados da guerra, só queriam ouvir uma palavra: «Bahnhof», a estação que os levaria para casa. Percebem a beleza disto? Uma expressão que nasceu do cansaço e da saudade. Quando ouvirem alguém a dizer ich verstehe nur Bahnhof, não pensem em tradução — pensem num soldado exausto a sonhar com o comboio da última viagem.
A lógica do corpo (que não é a nossa)
Os alemães também usam o corpo para dizer coisas que nós diríamos de outra forma. Quando querem desejar boa sorte, dizem ich drücke dir die Daumen — literalmente, «aperto-te os polegares». Nós, portugueses, cruzamos os dedos. Eles apertam-nos. A imagem é diferente, mas o gesto de solidariedade é o mesmo. Outro exemplo delicioso: das ist mir Wurst. À letra, «isso é-me salsicha». Ou seja, «estou-me nas tintas». Há quem diga que a expressão vem dos tempos em que as salsichas eram um bem comum e ninguém queria saber de quem era qual. Não sei se é verdade, mas adoro a ideia de uma língua que transforma indiferença num enchido.
Animais que mentem e outros disparates
Os alemães não ficam atrás quando o assunto é zoologia idiomática. Lügen haben kurze Beine — «as mentiras têm pernas curtas» — é a versão deles do nosso «a mentira tem perna curta». Aqui a tradução até funciona, mas há outras que nos fazem coçar a cabeça. Por exemplo, eine Schnecke im Ohr haben significa «não ouvir bem», mas à letra é «ter um caracol no ouvido». Imaginem a cena: um caracol instalado no canal auditivo, a bloquear o som. É absurdo, visual e, por isso mesmo, inesquecível. Quando estudarem uma expressão destas, não a decorem como uma fórmula matemática. Fechem os olhos e vejam o caracol. Vejam as mentiras de pernas curtas a tentar fugir. Quanto mais ridícula for a imagem, mais facilmente o cérebro a guarda.
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